julho 21, 2004 |
Retro Retalho nº 10 - O Futuro
“Give me back the Berlin Wall give me Stalin and St. Paul I’ve seen the future brother: It is murder” Leonard Cohen, The Future
O raquítico ramo de pinheiro decorado com um par de sinos desgastados pelo tempo e um velho postal representando a Sagrada Família na sua gruta, ou manjedoura conforme as opiniões que divergem, era a única decoração natalícia no quarto de Crispim. Sentados no chão, Nuno, João, Bernardo, Rodrigo e o próprio Crispim partilhavam uma taça de ponche.
- Esta noite é a despedida... Daqui a pouco estaremos todos licenciados
- Se assim for, vamos lá ver. Porque não há garantias que acabemos todos este ano...- Bernardo olhou para o João pelo canto do olho, que já no ano anterior fora finalista.
- Ainda assim, se um ou dois de nós acabarem será o fim deste período glorioso. Já sinto a nostalgia dos tempos de estudante.
- “Ai que saudade sinto em mim do meu viver de estudante...” - Nuno cantarolava entre baforadas de fumo.
- A culpa é da quadra, deixa-nos todos nostálgicos de alguma coisa. Eu por exemplo, mesmo ateu, sinto-me assim - disse João ‘Eça’.- O Natal deixa-nos todos nostálgicos da infância, das mesas cobertas de doces, da família junta em harmonia a narrar velhos contos natalícios. Mesmo quem nunca passou pela experiência concreta, e sou um deles, fica melancólico.
- Compreendo, mas não é a isso que me refiro. - Rodrigo insistiu.
- “...sempre a tinir sem um tostão...”
- Refiro-me realmente ao fim deste nosso grupo - continuou Rodrigo não se deixando incomodar pela cantoria do Nuno. - É que, parecendo que não, durante estes anos passámos por boas! Vou sentir a vossa falta.
- Pois eu não - conclusão fria e distante de Bernardo, o playboy.- Finalmente vou poder ganhar dinheiro a sério e concretizar alguns sonhos. São etapas, amigos. E esta está a acabar. De resto, vocês não são propriamente gajas boas para que eu vá agora sentir saudades...
- Antes pelo contrário: mulheres há muitas, amigos são difíceis de encontrar.
- Sim, nesse caso sou obrigado a concordar - o playboy acenou afirmativamente com a cabeça. - Estiveste bem ‘Eça’, amigos é que há poucos, pelo menos amigos a sério. E vocês, apesar das limitações não me têm deixado ficar mal.
" -...aquela traidora de franja... Merda, não consigo parar de pensar na ‘Beatriz’. Até a Canção de Lisboa me faz pensar nela.
- Tens um fraco pela Beatriz Costa? - questionou Bernardo com ar desconfiado.
- Não, não é essa. Foi só uma associação de ideias. A minha ‘Beatriz’ é aquela rapariga de Literatura...
O playboy exibiu um esgar de troça. Estava na altura de revelar a sua teoria:
- Aquela com quem nem sequer consegues meter conversa? Pois eu o que faria, mas isto é só a minha opinião, o que eu faria era convidá-la a sair. Primeiro um inocente cafézinho, depois um jantar, mas um jantar de classe, não digo levá-la ao McDonald’s! – o comentário irónico varreu toda a plateia de classe média em seu redor. - E depois do jantar talvez uma bebida e dançar um pouco, sugiro o Blue’s Café. O T-Club será talvez excessivamente pretensioso.
- Declara-te mas é à gaja pá. Deixa-te de paneleirices. - Crispim, amorosamente abraçado a uma caneca de ponche, contribuiu com a sua franqueza habitual.- Diz-lhe que ela é muita boa... Eu por mim estou é ansioso que chegue a minha Albertina! E não penses que enquanto ela cá estiver vou ficar embasbacado a olhar para ela...
O comentário atingiu Bernardo como uma bofetada de mau gosto.
- Claro que podes também bater-lhe com uma clava na cabeça e arrastá-la para a gruta...
- Esqueçam a Beatriz, que tal combinarmos uma passagem de ano em conjunto? - Rodrigo tentava desesperadamente reunir os resquícios de camaradagem que pudesse. O playboy apressou-se a negar a sua disponibilidade:
- Já tenho tudo combinado com a Raquel. É uma das meninas da meteorologia, sabem?
- E eu, na véspera de Natal, faço as malas e raspo-me p'ra terra com a minha Tininha...
Rodrigo, destroçado pelas sucessivas recusas, virou-se para Nuno, com uma réstia de esperança.
- E tu?
Nuno, absorto nos seus próprios pensamentos, nem ouviu a questão.
- Que se lixe! Amanhã vou falar com a 'Beatriz'. Seja o que Deus, ou o Diabo, quiser...
O ruído de passos arrastados no corredor (crrrshk, crrrshk, crrrshk) despertou a atenção do grupo, como o voo picado de uma coruja sobre um rato do campo.
- O que é isto? – Grasnou uma voz quebrada de velha, do outro lado da porta fechada.
Crispim, na sua amplitude atlética, encolheu-se de medo, enquanto a idosa senhoria abria a porta do quarto, indagando o que se passava.
- Ah, meu malvado! Eu não te disse que não queria aqui festas? Tudo daqui para fora ou eu chamo a guarda. Já! Tudo daqui para fora, canalha do demo.
E a golpes de vassoura a balofa Dona Cacilda punha termo à última ceia daquela pandilha. Rodrigo, já à porta do prédio, foi incapaz de controlar as lágrimas.
- É indecente. Isto não é maneira de terminar com este nosso grupo. Puta da velha!
- Quanto a vocês meus meninos, eu não sei- começou Bernardo, no seu tom formal e petulante- Mas eu vou é ter com a minha amiga da metereologia. Boas noites.
Nuno, por seu turno, fitava o infinito, com ar sonhador:
- Amanhã é certo: vou falar com a ‘Beatriz’.
Publicado por m-a-ribeiro28 em 06:29 PM
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fevereiro 26, 2005 |
Retalho nº 11 - Laura
Laura sentada sobre o parapeito da varanda chorava. Nuno aproximou-se, hesitante, sem saber o que a pusera naquele estado. ‘Terei dito algo de errado?’, interrogava-se com a preocupação exacerbada por um amor recente.
- O que se passa?
Ela não respondia. Simplesmente soluçava, cada vez mais ofegante. Abraçou-se a ele e as lágrimas quentes molharam-lhe a cara. Já em lágrimas também, ele repetiu:
- O que se passa? O que foi que eu fiz?
Laura procurava falar, vencendo os soluços, mas pouco se compreendia.
- Nada, nada – e depois, de forma mais clara: - Diz-me que nunca me vais abandonar. Promete-me que nuca me vais abandonar!
Nuno, apanhado de surpresa, banhado em lágrimas, suas e dela, ficou boquiaberto. Namoravam há tão pouco tempo que não esperava ouvir já aquela velada afirmação de amor eterno. Mas não era isso que ele queria? Não se prestara ele a lutar pelo amor daquela ‘Beatriz’, que era, na verdade, Laura?
- Claro que prometo, Laura! Nunca te abandonarei! Nunca!
Abraçado a ela, partilhando lágrimas e uma intimidade que nunca esperara atingir, Nuno não tinha a menor dúvida de que era aquilo que sentia. Nunca a abandonaria. Minutos depois, mais calma, já rindo, Laura pediu-lhe desculpas.
- Não sei o que me deu. Devo ter bebido demais...
- Deixa lá isso. Não disseste nada de errado. E o que eu prometi fica prometido. E com um beijo selaram aquela declaração de união eterna.
- Nuno, foda-se! – O vozeirão do Crispim tonitroou à distância. – O Rodrigo meteu-se ali numa merda qualquer! Há porrada.
Laura, já recomposta, aconselhou o namorado a ir ver o que se passava. Crispim, com uma brilho de ânimo nos olhos, que lhe surgia sempre em caso de balbúrdia, incitava-o a segui-lo sem demoras.
- O gajo estava bêbado e veio um mangas qualquer a insultar a malta da faculdade. Já sabes como é o Rodrigo, não se pode falar mal desta merda. Agora há porrada! - Arrastando-o pela gola da batina, Crispim nem dava tempo para respostas.
Junto ao bar, um pequeno ajuntamento evidenciava que algo de estranho ali se passava. No meio de um círculo de curiosos, Rodrigo media forças com um careca entroncado. O careca, talvez militar, estava em vantagem e a face do Rodrigo já era arrastada pelo chão.
- Morte à tropa! – uivou Crispim, com a capa esvoaçando atrás de si, enquanto investia sobre o careca, com a brutal moca mão na mão direita. Nuno mordeu os lábios apavorado.
De entre os curiosos no círculo destacavam-se algumas carecas, certamente colegas daquele que humilhava o Rodrigo. Por muito possante que fosse o transmontano e por muito brutal que fosse a sua famosa moca, ele estava em grande desvantagem. Pensando já nas suas própria contusões e temendo ainda pior, Nuno olhou em volta em busca de salvação. Em frente à Laura, após aquela cena hollywodesca, não poderia vacilar...
Atirando para trás a capa negra investiu sobre o careca, repetindo o grito de guerra do amigo, o qual, entretanto, já desferira duas rápidas mocadas na cabeça do adversário. Os restantes carecas rapidamente revelaram a sua filiação: Eram mesmo companheiros de armas do homem que, agora, jazia no chão, com a cabeça partida.
Sem esperar um só segundo, os cinco militares saltaram sobre Crispim, Nuno e Rodrigo, este último ainda abananado e olhando em redor, como que procurando o camião que o acabara de atropelar.
“- Mãezinha, agora é que de vez. Estes gajos vão-me matar”, pensou Nuno, enquanto observava com espanto a calma do Crispim empunhando a moca com um sorriso de desafio.
De repente, um tiro ecoou não muito longe dali. Os militares, já em pé de guerra foram alertados por um som que lhes era familiar. Pelo acesso à varanda entrava o velho Raposo, coxeando embrulhado numa manta, e com uma caçadeira na mão.
- Vamos a andar, senão mato um dois! – ameaçou. Perante a arma, os bravos soldados dispersaram como coelhos assustados.
“Salvos pela cavalaria. E mesmo a tempo”, pensou o Nuno, aliviado. O Crispim já abraçava o velho Raposo, gritando vitória.
- Deixa-me em paz garoto, que só arranjas sarilhos. Da próxima resolves tu o problema! O Rodrigo, entretanto, conseguira levantar-se do chão e balbuciava, atabalhoado:
- Onde estão esses cabrões. Eu chego para eles. Eles que venham...
Publicado por m-a-ribeiro28 em 02:31 PM
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Retalho nº 12 - Traição
“Then they got into a passionate fight She says now this isn’t love it’s what you do in spite of it. And I can’t go on with it night after night after night” Passionate Fight, Steve Nieve, Elvis Costello
Eram três da tarde de um dia luminoso e solarengo e o Nuno caminhava a passo largo para o local de encontro com a Laura, mesmo em frente à Brasileira do Chiado, como era hábito. Como também era hábito, ela não estava lá.
“Paciência, espera-se...”
A chuva miudinha que teimava em cair desde que saiu de casa não ajuda muito. Mas o Nuno, sentindo-se particularmente tolerante, decidiu esperar. Os ponteiros do relógio, porém, não mentiam: Já passara um quarto de hora e dela nem o vulto.
“O que se passa? Terá sido um acidente? Estará o trânsito interrompido?”
Por essa altura o Nuno estava encharcado da chuva, que já não parecia tão miúda e inofensiva.
“Grande porra, é o que isto é. Está sempre atrasada.”
E se... E se ela se esqueceu? Teria ela combinado outra coisa para aquela tarde e esquecido a ida ao cinema?
“Não me admirava nada, já aconteceu...Quando é que foi mesmo? Ah, quando ela foi sair lá com a outra gaja, a Marta. Boa prenda me saiu essa, também!”
Vinte cinco minutos depois da hora combinada e Nuno continuava à espera, continuava à chuva. De repente uma ideia passou-lhe pela cabeça:
“E se ela está com outro?”
As conversas entre a namorada e a nova amiga, a Marta, pareciam-lhe subitamente muito suspeitas.
“Aqueles risinhos, aqueles segredinhos... Humm, aqui há qualquer coisa. Elas não me enganam! Elas têm andado a congeminar alguma. E os telefonemas dele que ela não atende? O telemóvel não tem bateria, estava no banho, não tinha rede... Desculpas de merda, o que ela não quer é atender os meus telefonemas! O pior é que não são só os telefonemas! Então e os convites recusados? E aquele dia em que ela me pôs na rua porque ia dormir. Dormir o caraças, estava era à espera do outro.”
E pronto! A prova, Nuno lembrou-se da prova! Duas semanas antes, aquando da visita a Leiria, supostamente a casa dos avós da Marta...
“A Marta, sempre a puta da Marta! Que mal lhe fiz eu para estar a ajudar a Laura a montar-me estes enfeites na testa?”
A viagem tivera, certamente, outros motivos...
“As duas vacas, foram ter cada uma com o seu.”
Com a certeza da traição já bastante enraizada no espírito, Nuno fincou pé decidido a esperar, demorasse o tempo que demorasse.
Meia hora depois do combinada ela apareceu. Vinha apressada, enquanto subia os degraus da estação de metro, trazendo na mão um embrulho. Correu para ele, sorridente e logo pediu desculpa pelo atraso. Como resposta, Nuno lançou-lhe um olhar de desprezo e rosnou-lhe, ao virar costas:
“Grande peça me saíste tu! Tanto tempo perdido a conquistar-te e afinal saíste-me igual às outras. Foda-se, que sorte a minha!"
Ela bem olhou em volta, à espera que um idiota qualquer saltasse detrás do Pessoa a apertar-lhe a mão com um sorriso untuoso e a dizer “é para os apanhados, é para os apanhados.” Mas nada. Aquilo era mesmo a sério. O embrulho, um livro que acabara de comprar para oferecer ao Nuno, deslizou-lhe das mãos com o espanto e a confusão. De rosto lavado em lágrimas, Laura tornou a descer as escadas.
Foi o princípio do fim de uma relação que parecia talhada nos céus.
Nessa noite Nuno repetiu um percurso que lhe era muito familiar, principalmente em momentos de crise e refugiu-se no Bar Barruiva. O Adolfo lá estava, ainda coxo, um pouco mais careca do que na última visita e ainda mais pançudo.
- Bonito, sim senhor. Isto é que é. Já não vinhas cá há uma ano, meu menino!- ralhou o Adolfo, em tom de brincadeira. – Então, o que se passa?
O Nuno tombou sobre o balcão, fatigado e deprimido.
- Fiz outra vez asneira.
Durante uma longa meia hora, o Nuno mergulhou a custo na sua turbulenta relação com a Laura, pondo o seu barman confidente a par da situação. Era difícil relatar os detalhes de um amor que fora feliz e que terminara de forma tão abrupta, tão seca. Lá para o fim já uma lágrima lhe rolava pela face e, não fosse a presença dissuasora do Adolfo e teria quebrado completamente.
- Mas a verdade é que eu não fui feito para ser feliz. Alguma coisa acaba sempre por correr mal.
- Deixa lá miúdo, ainda és novo. O futuro trará algo de melhor.
As palavras amáveis não eram inteiramente sentidas, pois o Adolfo recordava no seu próprio passado uma velha história de amor, amarelecida como os velhos recortes de jornal. Ela chamava-se Lúcia e provavelmente continuava a chamar-se. Teria agora cinquenta e tais, como ele.
“Onde estará a Lúcia agora?”
Conheceu-a num baile nos bombeiros do Dafundo e foi amor à primeira vista. Ele um jovem tipógrafo literato, envolvido com o Partido Comunista e que sonhava com revoluções, bombas artesanais e em escrever um livro.
“Como Proudhon. Sim, que ele também era tipógrafo, tal como eu. Assim se fazem os homens, a pulso!”
Os sonhos literários foram interrompidos pela guerra do Ultramar. A contragosto lá foi, falhada a cunha do padrinho que conhecia um coronel de Infantaria e a tentativa falhada de quebrar uma perna ou emigrar para França. Faltou-lhe a coragem para mutilar o membro e o dinheiro para pagar a viagem. Ironicamente, a guerra amputou-lhe a mesma perna que planeara quebrar.
“Aquilo é que foi uma estupidez. Para não entalar a perna no ferro da cama e dar um esticãozinho, perdi-a toda quando uma pisei uma mina...”.
Quando regressou de Angola, a Lúcia, sua noiva, com quem pensava casar assim que encontrasse um emprego estável na metrópole, já partira para outra. Supostamente, ele prometera escrever durante o último mês e, como a estadia no hospital o impediu de pegar na caneta, sempre sedado por causa das dores na perna que já não tinha, ela julgou que ele tinha morrido por terras de África. Assim, após um só mês sem receber correspondência do noivo, a Lúcia encontrou um substituto à altura, o Raúl. O Raúl já a cortejava há muito e o Adolfo sabia-o perfeitamente.
“O que foi, foi que ele tinha as duas pernas. Sacana de merda, tinha uma boa cunha e não foi à tropa! Um bom fascista. O pai era dono de uma fábrica de curtumes. Mas pagou-as bem pagas! Morreu de enfizema pulmunar, o sacaninha.”
A morte do rival, ainda em tenra idade, não constituiu para o Adolfo fonte de grande satisfação. Por essa altura já ele não quereria a Lúcia de volta, nem banhada a ouro. Mais tarde veio a arrepender-se.
“Sempre seria um consolo para as noites solitárias da velhice, alguém com quem falar.”
Por enquanto tinha a sua tasca, os seus amigos, os seus clientes. E quando já não pudesse trabalhar? O que seria dele? Quem tomaria conta de um velho coxo que não economizara grande coisa ao longo de uma vida trabalho?
“Gastas tudo nas putas”, repreendia-o o irmão, motorista da Carris e fiel devoto do Reino de Deus. Não fosse isso e que faria, ainda solteiro aos cinquenta e nove, coxo e careca?
- Despeja-me aí mais uma caneca de sangria.- pediu o Nuno.
O Adolfo, perturbado pela conversa e pelas memórias, abriu uma excepção e bebeu também. Sobre o balcão encardido da tasca do Adolfo os dois desiludidos, de gerações diferentes, mas unidos pela desgraça, trocavam lamentos e palavras de conforto. O Adolfo teve a sua chance com a morte do Raúl, que não aproveitou por despeito, o Nuno acabava de deitar fora a sua oportunidade de recompor a sua vida, por estúpidos ciúmes que, provavelmente, até eram infundados. Naquele momento de grande camaradagem, os dois sentiam-se quase como irmãos. O velho veterano de guerra, amputado na perna e na possibilidade de ser feliz e o jovem desiludido, desempregado, sem rumo e, por sua culpa, sem o amor da sua vida.
- Isto faz-me lembrar uma frase que li há muitos anos num livro de um camarada de letras, o Manuel da Fonseca. – relembrava, emocionado o barman
- Já sei, ‘positivamente dois falhados e tontos’- completou o Nuno com a mágoa de quem sabe que é verdade.- Falhados e tontos...
Enquanto o barman e o cliente comparavam as cicatrizes amorosas, uma outra figura se aproximou do balcão, um sujeito cambaleante, que já bebera demais, mas que ainda não estava satisfeito.
- Rodrigo! Rodrigo, foda-se. Há quanto tempo!- gritou o Nuno, reparando que o tipo que o estava a empurrar para alcançar o balcão era o colega de faculdade que não via desde... desde que começara uma nova vida.
O Rodrigo, sempre dado a nostalgias, ainda para mais como estava, bêbado como um cacho, não se conteve e desatou numa choradeira incontida. Os dois amigos, unidos num abraço, trocavam palavras desconexas, tentando num minuto relatar o que aconteceu num ano. Minutos depois, já sentados a uma mesa, um pouco mais sóbrios, conseguiram, finalmente, refrear as emoções e encetar um diálogo coerente.
- O que tens feito?- indagou o Nuno.
- Televendas, pá. Isto não está fácil. E tu?
- Fui estagiário num pasquim de merda, durante algum tempo. Agora sou desempregado. Isto não está mesmo nada fácil.
- E o Crispim? – perguntou o Rodrigo. – Por onde anda agora essa besta?
- O Crispim voltou para a terra. A mãe queria-o lá e o gajo não conseguiu vencer a inércia. Arranjou um trabalhinho fácil na câmara municipal. Era o que ele queria, acho eu. Mas não temos falado muito. Ao que me parece está noivo de uma prima.
- Coitado. E ele queria?
- Acho que não. Foi combinado pelas famílias ainda andavam no liceu. Na última vez que falámos ele queixou-se de que a gaja é gorda. Não lhe tenho dado muita atenção, sabes?- confidenciou o Nuno, subitamente sentindo a melancolia regressar- Aquela que eu chamava ‘Beatriz’, suponho que te recordas? Acabámos. Mas quando acabámos já se chamava Laura. Enfim, sempre se chamou, eu é que não sabia. Bom, penso que acabámos. Nem sei bem.
- Que chatice. E tu gostavas muito dela, não?
- Sim. Sabes como é, as coisas só se resolvem com diálogo e quando a comunicação é cortada não há nada a fazer.
- O Bernardo é que está bem- discretamente mudando de assunto, o Rodrigo tentava elevar a moral do ex-colega.- Está para se casar com a miúda da meteorologia. E tem um bom emprego, suponho que já deves saber, está na televisão.
- O Bernardo que se lixe. Nunca gostei muito dele. - No fundo o sucesso do playboy do grupo incomodava-o de sobremaneira. Claro que o Nuno atribuía o sucesso dele a dinheiro e influência mas, ainda assim, saber que o Bernardo estava tão bem na vida enquanto ele próprio estava de rastos, magoava-o profundamente.
– Bom, estou a ser egoísta. Ainda bem que o Bernardo tem sorte. É bom que a sorte favoreça alguém.
- Tem favorecido também o Diogo Avellar- continuou o Rodrigo, contribuindo, inadvertidamente, para agravar o estado depressivo do amigo.- Publicou o terceiro livro este mês.
- Eu sei, recebi o convite para a festa do lançamento. Claro que não fui. Essa besta é que não suporto mesmo. O Bernardo ainda tem algo a seu favor, mas o Avellar não vale nada. E se como pessoa não presta, como poeta ainda é pior.
O Rodrigo continuava a não partilhar desta aversão ao companheiro poeta. Não obstante, sempre fora mais próximo do Nuno do que do outro, o que o levava a ficar sempre do seu lado.
- E o ‘Eça’ como está ele?
A pergunta esperada funcionou como uma agulha a penetrar fundo no espírito perturbado do Nuno. O ‘Eça’, seu amigo de infância, companheiros de escola, inseparáveis. Era perfeitamente compreensível que o Rodrigo perguntasse por ele, afinal se o Nuno não sabia do ‘Eça’, quem haveria de saber? A verdade é que o Nuno não sabia, não fazia ideia do paradeiro do amigo. Desde que a sua relação com a Laura se tornara conturbada, na mesma altura em que começou a sentir as reais dificuldades de encontrar emprego, nunca mais teve outras preocupações. O ‘Eça’ foi apenas mais uma das vítimas do seu egoísmo. Por isso foi com mágoa que respondeu:
- Não sei. Não faço ideia, não o vejo há meses. Espero que ele esteja bem.
E, de repente, uma sensação de vazio tomou conta de si. O curso acabado, os amigos afastados, nenhuma esperança de se realizar profissionalmente num futuro próximo, a mulher de quem gostava afastada pela sua insensatez. Em que desgraça se tornara a sua vida. No entanto, não sentia a mínima vontade de lutar contra a inexorável queda no abismo. Para quê lutar, se sabia que, mais tarde ou mais cedo, iria perder, iria fracassar? Naquele momento compreendeu que era, talvez, o último momento para recuperar alguma parte da vida que estava a perder. Contactar os velhos amigos, combinar um jantar com todos eles, quem sabe algum não tivesse conhecimento de um emprego a que ele pudesse concorrer. Mais importante do que isso, restaurar a camaradagem que os unia. Poderia também telefonar a Laura, pedir-lhe desculpa, oferecer-lhe flores, escrever-lhe uma carta, dedicar-lhe um romance.
Enquanto a sangria o animava ainda manteve a esperança de, no dia seguinte, dar uma volta à sua vida. Depois, tudo mudou, viu as cores feias com o que pintara o seu mundo nos meses anteriores e só sentia vontade de ir para casa chorar. Quando se despediu do Rodrigo, por volta das seis da manhã, já sabia que nenhum dos planos traçados durante a madrugada seria levado a bom termo.
- Adeus Rodrigo, até à próxima.
- Adeus, pá. Temos que combinar qualquer coisa com o pessoal. Temos mesmo de combinar um jantar – insistiu Rodrigo, sem grandes esperanças de que tal viesse a acontecer.
Publicado por m-a-ribeiro28 em 02:47 PM
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Retalho nº 13 - Vamp
Não havia forma de o evitar, Nuno sentia-se miserável. Ainda perturbado pelo fim da relação com a Laura e com a situação profissional precária, passava as noites de bar em bar, tentando esquecer tudo. Nessa mesma tarde fora enviado para mais um trabalho de estagiário, ao serviço de outro pasquim de má fama, para cobrir uma inauguração de qualquer coisa, numa terra qualquer, nos arredores do Barreiro.
Antes de tentar sequer encontrar o local a inaugurar, instalou-se numa pequena taberna decorada com motivos tauromáquicos. A decoração agradou-lhe visto tratar principalmente de bois, mais ou menos aquilo que se sentia desde que a namorada o deixara. Nuno ainda pensava para si próprio se não fora trocado por outro. A resposta, essa, só ela e um eventual ‘ele’, saberiam. Não interessava. Já não interessava.
Durante a tarde permaneceu na taberna bebendo copo de vinho atrás de copo de vinho, observando os velhos que jogavam à sueca e à bisca, pensando no idiota do chefe de redacção e nas pernas da Laura. O encontro casual com o Rodrigo no Bar Barruiva e todos os planos que havia congeminado sob o efeito da sangria já tinham caído no esquecimento. Seis meses depois da noite em que sentira a verdadeira nostalgia dos bons tempos académicos, ainda nem sequer se lembrara de telefonar ao amigo ‘Eça’.
“Afinal, - concluíra – ele também tem telefone. Se me quisesse ligar também podia.”
O que Nuno ocultava, até mesmo nos seus pensamentos mais íntimos, era que o afastamento partira de si e não do outro. Desde que começara o namoro com Laura, tudo o resto perdera o significado e, quando a relação terminou, os seus dias passaram a ser preenchidos com a mágoa da rejeição.
Nessa noite decidiu ir beber uns copos. Não foi ao Bar Barruiva. As recordações dos tempos felizes e despreocupados tempos académicos eram mais fortes ali do que em qualquer outro lugar. Debruçado sobre o tampo riscado de uma velha mesa de um bar do qual nem sabia o nome, terminava o seu terceiro Black Russian. Por entre baforadas de fumo de cigarro o mundo em seu redor parecia-lhe ainda menos nítido. Cada vez menos nítido. Há um ano, há dois, tudo era tão simples, tão directo, tão claro. Havia uma vida, um futuro certo. Demasiadas certezas que se desmoronaram como um castelo de cartas. Agora, seis meses depois do acontecimento que marcara de forma definitiva a sua vida – para o bem e para o mal – tudo era ainda menos claro. Ela deixara-o. Isso ficara bem claro... Mas, durante meses, ele guardara a esperança de que, corrigidos os erros, mudado o carácter beligerante, desconfiado e possessivo que pusera fim a uma relação que julgara perfeita, as coisas poderiam voltar atrás.
Procurara mudar o seu comportamento. Falhara? Não sabia. Alguns aspectos, certamente, haviam mudado. Principalmente o respeito. De um momento para o outro compreendera a importância que aquela mulher tivera na sua vida, a marca permanente que ela deixara. O seu sorriso doce, o cheiro do seu perfume, o toque suave do seu cabelo, os pequenos prazeres de uma relação, complicada, porém inesquecível.
Como poderia ele esquecer aquela tarde na neve, algures na Floresta Negra. O sol brilhava iluminando a paisagem branca, aqui e além manchada de verde. A tarde feliz de brincadeiras na neve, o ar radiante dela, as memórias perdidas, não fosse terem sido captadas em foto, trouxeram-lhe uma lágrima que rolou pela face áspera, perdendo-se na barba de dois dias. Depois Sintra, o passeio pela serra, cansados, de mão dada e Cuba, o pôr do sol que nunca viram juntos, junto à praia, junto ao mar. E as tardes no café? Conversas banais sobre este ou aquele, simpáticas maledicências: o casal que aparentava ser composto por dois irmãos, a quem ele chamava os ‘Maias’, o colega frequentador de prostitutas, o pobre diabo que se apaixonava e imaginava casamentos perfeitos, com pessoas diferentes, mês sim, mês não... Tanto coisa que se passara e tanta coisa que ficara adiada, talvez para sempre.
Era tarde, três da manhã. O trabalho dessa tarde completamente esquecido iria valer-lhe uma repreensão no dia seguinte. Mas o dia seguinte estava longe. Viajava numa carruagem de comboio quase vazia e sentia-se flutuar. Na carruagem viajavam apenas um homem gordo e calvo, que parecia também bêbado como um cacho, e uma mulher morena.
A mulher, ainda jovem, capturou-lhe a atenção: era elegante, muito sexy e trazia um vestido de veludo negro, justo e com um decote revelador. Curiosamente ela sentara-se mesmo à sua frente. A princípio tentara desviar o olhar, para não dar demasiado nas vistas. Era difícil, tendo na frente aquela portentosa amostra do sexo feminino, olhar para algo que não fossem as curvas do seu corpo. A jovem vamp à sua frente era um brinde para os olhos e, foi a custo, que conseguiu desviar o olhar para a paisagem. No exterior, as luzes da cidade deixavam para trás um rasto fantasmagórico de cores de néon, sobre a negritude da noite sem lua. Sentia um vazio estranho, como se tivesse entrado numa sessão de cinema nocturna para ver um velho filme de série B. Ele não estava ali e a realidade à sua volta desfilava qual fita de celulóide sobre uma tela.
De repente, pareceu-lhe captar, pelo canto do olho, um sorriso sedutor da bela morena.
“Será para mim?”, pensou.
Não podia ser, concerteza estava a olhar para um reclamo de publicidade engraçado... Mas... Parecia mesmo que era para ele que ela estava a olhar! A medo, virou-se para ela. Nesse momento deparou com o mais belo sorriso que jamais vira.
“Para mim! Só para mim!”
Duas filas de dentes imaculadamente brancos, enquadrados pelos lábios vermelhos mais sensuais que já tivera oportunidade de observar a curta distância. Nuno ficou tonto. Sentiu uma descarga de adrenalina percorrer-lhe todo o corpo e, por milésimos de segundo, seria capaz de escalar montanhas, erguer toda a carruagem do comboio e fazer o pino apoiado no dedo mínimo. Pensando tratar-se de um uma ilusão de óptica, provocado pelo estado de embriaguez em que se encontrava, esfregou os olhos com força. Ela ainda estava lá e, mais surpreendente, continuava a sorrir.
“Estarei a babar-me?
Depois caiu em si: “E agora? Como é que se mete conversa com a coisa mais bela que já se viu, numa carruagem de comboio nos subúrbios de Lisboa? Certo que estava a sorrir para mim, mas...”
Reunindo toda a coragem que tinha, Nuno acabou por murmurar um tímido “Boa noite”. Seguidamente, ainda teve a ousadia de acrescentar, com um sorriso matreiro, “Não nos conhecemos de algum lado?”
Para seu espanto a jovem não se levantou, nem saltou do comboio em andamento. Ficou. Respondeu. Conversaram. Ofereceu-lhe um cigarro mentolado e disse-lhe que era estudante de psicologia. Nuno desconfiou, por essa altura, que não passava de um case study, escolhido ao acaso num transporte público. E não seria despropositado. Encontrava-me num estado psicologicamente analisável, medicável, porventura internável. Mais tarde apercebeu-se que não se tratava de curiosidade profissional. A bela vamp sentou-se ao meu lado e conversaram um pouco. Ela era francesa, chamava-se Nicole e viera para Portugal num programa de troca de estudantes. Com o entusiasmo, Nuno nem reparou que a pronúncia da jovem, nitidamente estrangeira, soava a tudo menos a francesa...
Embora a paisagem que mais lhe interessava estivesse a um palmo do seu nariz, ele ofereceu-se para lhe mostrar coisas que não vinham nos guias. Ela apenas sorriu. Um sorriso ainda mais voluptuoso do que antes. Nuno afundou-se de prazer no assento, e sorria como um idiota.
- Queres acompanhar-me a casa? – perguntou ela. – Podemos deixar a visita guiada para amanhã.
Nesse momento, Nuno sentiu-se como se um dispositivo nuclear tivesse sido detonado debaixo do seu queixo. Gaguejou ao responder um tímido “sim”. Ao sairem do comboio, numa qualquer estação nos arredores, passou-lhe pela cabeça se esta jovem não seria uma ‘profissional’. As probabilidades apontavam para isso, mas a postura e a forma de falar eram de uma universitária – como ela própria alegara – e não de meretriz. Seria talvez uma prostituta universitária? Rapidamente, e graças ao efeito do álcool, colocou essa hipótese de parte.
Apanharam um táxi, conduzido por um homem com mau hálito e péssimo gosto musical. O taxista obrigou Nuno a comentar todas as músicas que passavam no execrável posto de rádio que costumava ouvir. Ele, por delicadeza, tentava agradá-lo com um sorriso amarelo, enquanto procurava concentrar-se no decote da rapariga ao seu lado. Finalmente, chegaram ao destino, algures nos Anjos. Ela apontou para um edifício decadente e disse:
- É ali que eu moro. Não é grande coisa, mas é cómodo. E tem uma cama...
Subiram pela escadaria íngreme e fétida, quase às escuras. A meio da subida, Nuno sentiu as mãos da rapariga tacteando em busca de algo. Pararam sobre o cinto das suas calças. Ela levou o indicador aos lábios e fez-lhe sinal para manter o silêncio. A pouca luz que atravessava a clarabóia iluminou o cabelo da rapariga enquanto esta se ajoelhou em frente ao Nuno e lhe baixou as calças. O coração dele batia furiosamente e sentia como que um tambor a soar-lhe nos tímpanos. Sentiu os quentes lábios dela e uma arrepio percorreu-lhe a espinha. De repente, uma pancada na nuca apagou as luzes por completo e, a última coisa em que pensou foi “que estúpido!”.
Algum tempo depois, Nuno não fazia ideia quanto, acordou, deitado no chão, com uma dor horrível na nuca. Olhou em volta e pareceu-lhe que estava ainda na zona dos Anjos, mas afastado do edifício onde fora, aparentemente, assaltado. Quis confirmar as fortes suspeitas e levou a mão à algibeira.
“Foda-se, eu sabia. Aquilo não poderia estar a acontecer a sério! Roubaram-se a carteira”.
Ao terminar a inspecção apercebeu-se de que, para além da carteira perdera o telemóvel e um blusão. Para uma só noite, era demasiado azar! E, muito a custo, porque a cabeça ainda latejava de dor, preparou-se para um longa caminhada. Não tinha coragem de ir à polícia e relatar esta situação humilhante, por isso só lhe restava caminhar até à estação de comboios e confiar no bom humor do revisor quando lhe explicasse qual o motivo de não trazer passe ou bilhete.
Publicado por m-a-ribeiro28 em 02:56 PM
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Retalho nº 14 - E a Vida a Passar-nos ao Lado
“I loved for a long, long time, I know this love is real It don’t matter how it all went wrong, that don’t change the way I feel And I can’t believe that time is gonna heal this wound that I’m speaking of There ain’t no cure, there ain’t no cure, there ain’t no cure for love” There Ain’t No Cure For Love, Leonard Cohen
Dois dias depois da situação humilhante por que passara, Nuno empenhou as suas últimas forças escrevendo uma carta a Laura, onde expôs tudo o que ainda sentia por ela. Todo o seu amor, o que nele mudara, facto em que ela ainda não quisera acreditar. A reacção à carta, no entanto, não fora positiva. Por muitos anos que passassem nunca esqueceria aquela triste conversa telefónica que se seguiu:
“Olá, como estás? Espero que estejas bem. E o que novidades tens? Poucas, não é? Também não passou muito tempo desde que as nossas vidas se separaram. Pouco mais de seis meses. Pareceu uma eternidade. A ti não? Logo vi, eu sempre fui o sentimental deste par... Ainda gosto de ti sabes? Certo, já não falo mais nisso, pertence ao passado, já não volta. Comigo também não há nada de novo. Continuo desempregado, continuo apático. Sinto-me afundar cada vez mais na inércia. Creio que, brevemente, nem me irei levantar de manhã. Para quê? Não acontece nada. E tu, como te tens saído? Sempre as mesmas preocupações não é? A conta da luz, a conta do telefone, a conta da água, a prestação da casa, os horários a cumprir, os autocarros atrasados, os relatórios para completar. Não tens ido ao cinema, saído à noite, uns concertos, uns copos? Não? Já esperava essa resposta. Falta de tempo, falta de vontade, cansaço ao fim do dia de trabalho. Pronto, não te chateies, eu sei que me estou a repetir, o que queres? É verdade. Sempre foste assim. Sempre te disse que estás a deixar a vida passar ao teu lado. E eu? Sim, eu também, mas por razões diferentes. Sabes, o Wilde escreveu algo como isto: “Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão a olhar para as estrelas”. O que tem isso a ver? Sei lá, apeteceu-me só dizê-lo... Não, não tenho a veleidade de dizer que sou um dos que olham as estrelas. Quais estrelas? Eu já pouco saio de casa. Da janela do meu quarto não se vê o céu. Confinei-me e conformei-me. Mas estás satisfeita com o teu novo emprego? Preferias outra coisa não é? Claro que já estás à procura de melhor. Aposto que vais encontrar, tens a força necessária para isso, ao contrário de mim. Eu sou um fraco. Escusas de me tentar conformar, tiveste o teu tempo e não o aproveitaste para isso, estavas demasiado ocupada em arranjar o canudo. Calma, não são acusações. Pronto, já me calei, não se fala mais nisso. Sim, eu sei, a culpa foi toda minha, sempre demasiado crítico, levei a nossa relação à ruptura. Merda, até nisso falhei! Vi-te no outro dia sabes? Ah também me viste? Estás com bom aspecto! Eu não? Tens razão, estou abatido. Mas, já que preferes a sinceridade, devo confessar que estás mais gorda. Não estás? Pronto, não estás... Tu é que sabes. Havemos de combinar qualquer coisa. Quando tiveres tempo, é claro... É difícil, não é? O emprego ocupa-te o dia todo? Bom, gostei de falar contigo, queres que te telefone outra vez? Já te estou a invadir o espaço, não é? Tudo bem, falamos quando tu quiseres. Já tens namorado? Não tenho nada a ver com isso? Achava que sim... Pronto, está bem não tenho nada a ver com isso. Ser amigos? É só isso que posso esperar de ti? Não sei se suporto ser apenas teu amigo... Bom, então boa sorte! Encontramo-nos por aí, afinal a cidade é pequena, o mundo é pequeno. Espera! Olha... eeeh... Esquece, queria dizer-te qualquer coisa, mas já não me lembro o quê...”
Na mesmo noite, enquanto revia mentalmente pela centésima vez a conversa com a Laura, Nuno recebeu um telefonema do Rodrigo. O amigo estava magoado por não ter recebido resposta ao convite para organizarem um jantar e Nuno compreendia-o perfeitamente.
- Desculpa pá, tenho tido muitos problemas. Profissionais, pessoais. Está tudo em escombros. Quem me dera poder levar outra vez a vida que levava na faculdade!
- Tudo bem, eu compreendo. Mas há quem não entenda as coisas da mesma maneira...
Pensando em ‘Eça’, Nuno ainda colocou a questão:
- Quem?
- O ‘Eça’, principalmente. Diz que as últimas dez vezes que falaram foi por iniciativa dele. Mas já lá vai muito tempo. Agora só te volta a falar depois de um pedido de desculpas.
- Foda-se. Já fiz merda outra vez. Tenho de lhe ligar. Tenho de lhe explicar o que se passou – lamentou Nuno, sem grande convicção.
- O ‘Crispy’ também está chateado contigo. Não foste ao casamento dele, ele diz que até te mandou um convite.
- Sim, eu recebi-o. Mas perdi-o e esqueci-me da data. Nem coragem tive de lhe escrever ou mandar-lhe uma prenda.
- Estás mesmo de rastos rapaz! Mas não devias ter-te esquecido dos amigos. Aposto que nunca mais falaste com ninguém...
Nuno fingiu parar para pensar durante alguns segundos, embora soubesse perfeitamente que o Rodrigo era o único colega com quem mantinha algum contacto. E ainda assim, nunca por sua iniciativa.
- Realmente não. Nunca mais falei com o pessoal. Já nem sei o que te diga.
- Deixa. Resolve lá os teus problemas e quando tiveres tempo diz qualquer coisa. Certo?
- Está combinado.
- Olha pá, temos mesmo de combinar um jantar. Um daqueles grandes, com toda a gente e regados a vinho Robusto!
Pela memória do Nuno passaram breves recordações de todos os jantares de turma. Memórias de um tempo em que a vida não era um arrastar contínuo, uma triste monotonia. Lembrava-se com grande nitidez da véspera de uma viagem a Londres, acompanhado pelo ‘Eça’, a Catarina, o Bernardo e o Rodrigo. O Crispim, sem dinheiro para pagar a viagem, nem interesse em conhecer outros países, havia ficado em Lisboa, mas não faltara ao jantar. O alegre transmontano não parara de lhe encher o copo com vinho Robusto, vociferando: “Mais um copo para o Nuno, que amanhã vai de viagem.”
Mais tarde, à porta de casa, acompanhado pelo ‘Eça’, os dois perdidos de bêbados, julgavam até ter tido alucinações. Aparentemente, alguns vizinhos do Nuno tinham-se juntado na rua a entoar cânticos religiosos. Ainda hoje não sabia se tinha sido um sonho ou realidade. A viagem, por outro lado, fora bastante real, e dela guardava também grandes recordações. As rondas que faziam pelos andares do hotel para conhecer raparigas, sempre a fugir do guarda-nocturno, um indiano gordo, com um afável pastor alemão pela trela. Não se podia esquecer também da nórdica com a qual passara uma noite, depois de beber sozinho uma garrafa de vodka. Claro que não se lembrava do que se passara durante a noite e ela não ficou, com toda a certeza, satisfeita com a sua performance.
- Tens razão Rodrigo. Qualquer dia devíamos combinar um desses jantares – concluiu, desanimado.
Publicado por m-a-ribeiro28 em 03:02 PM
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Retalho nº 15 - À Beira do Fim
Contrariando o que ficara decidido na conversa telefónica com Laura, Nuno acabou por não resistir. Ligou-lhe mais uma vez. E outra. E outra ainda. Tentou convencê-la de que queria ser apenas seu amigo. Pensou que assim ela talvez olhasse para ele como uma nova pessoa.
Estava enganado. Ele ficara, no inconsciente da ex-namorada, marcado pelas atitudes pouco correctas que tomara e por um período muito negro na vida da rapariga. A amizade não era o seu objectivo, isso era verdade. Mas nos tempos que se seguiram Nuno mudara realmente e ... A resposta aos seus esforços acabou por chegar numa carta não muito extensa, escrita à pressa no autocarro.
“Depois de me teres escrito tantas cartas, de ter recebido tantos telefonemas, depois de ter havido tanta conversa sobre o mesmo tema, resolvi ser eu a escrever para que as coisas fiquem esclarecidas, de uma vez por todas. Conheci-te numa festa universitária. Durante algum tempo tivemos uma relação baseada pura e simplesmente na amizade, embora soubesse que tu gostavas de mim de outra forma. Acabei por gostar de ti também. Mais tarde iniciámos uma amizade colorida, que deu em namoro. Tudo correu bem. Descobrimos muita coisa um sobre o outro, confiávamos um no outro e eu contei-te muitas histórias que me magoavam. Ergui a minha carapaça. Depois, devido a erros de ambas as partes, o que eu sentia por ti extinguiu-se. Eu pensei, analisei e tive a certeza de que nada mais havia a fazer. Olhava para ti e nada mais sentia do que mágoa e alguma amizade. Como namorados falhámos, mas sempre acreditei na amizade que, para mim sempre foi mais importante do que o amor. Namorados, temos aqueles que quisermos, amigos verdadeiros é que não... Disse-te que não queria voltar a namorar contigo, mas não quiseste aceitar. Depois acabaste por concordar em retomar a amizade. No entanto, continuas a agir como um ex-namorado. É verdade que me ajudaste com alguns problemas nos últimos tempos. Ouviste-me e ajudaste-me, e isso foi importante. Mas também procuraste interferir. Esse foi o teu último erro. Agora, nada mais há dizer, resta-me despedir-me de ti. Adeus...
Laura”
Publicado por m-a-ribeiro28 em 03:04 PM
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Retalho nº 16 - Solidão
“...and my soul from out that shadow that lies floating on the floor Shall be lifted – nevermore!” Edgar Allan Poe, The Raven
Quase um ano depois do marcante encontro com o Rodrigo no Bar Barruiva, os planos tecidos na madrugada de copos na tasca do Adolfo acabaram por não passar dali. Depois da carta escrita à Laura e do telefonema posterior, Nuno chegara a uma conclusão: Nada poderia fazer para a convencer de que se tornara outro. Ela nunca iria acreditar e, mesmo que acreditasse, já tomara uma decisão irreversível.
Com uma profunda tristeza no seu âmago, ele recordava as palavras do amor da sua vida: “Eu nunca dou segundas oportunidades”. Mais magro, a barba por fazer, o olhar triste e vago, perdido no espaço, Nuno passeava de autocarro, sem destino, recordando o sonho de uma noite de Inverno. O sonho em que, pela primeira vez, abraçara a sua ‘Beatriz’. Desta vez, fosse sonho ou realidade (quem o pode saber?) já não o esperava a jovem morena, com o rosto cheio de alegria. Já não o esperava a vida despreocupada de estudante. Já não o esperava o conforto de uma chávena de café quente. No fim da viagem, apenas um emprego mal pago, num jornal que ninguém lia, com um chefe prepotente e talvez impotente.
O sorriso dela, desvanecido no tempo, levado pelas lágrimas de um ano mau. O Inverno voltara. Nesta tarde escura não era a melodia de Irving Berlim que lhe entretinha a mente. Era outra, melancólica, dos irmãos Gershwin, mais adaptada à sensação desesperada de perda:
“Our romance ended in a sorrowful note, though by tomorrow you’re gone, the song has ended, but as the song writer wrote, the melody lingers on...”
Em redor a multidão apertava-se, acotovelava-se, tentava alcançar o almejado lugar sentado. A ele, sentado e calado, só chegava um burburinho surdo, um ruído de fundo completado por imagens de fundo. Desfocadas. Distantes. Esquecidas. Algures, noutra dimensão. Ali onde ele estava era o Inferno. A recordação dos bons tempos perdurava e perduraria. Passeios de mão dada, beijos trocados, namoros à chuva, jantares românticos regados a vinho tinto e abraços inesquecíveis. Tanto as lágrimas, como os sorrisos, os momentos bons e os maus, porque a vida é mesmo assim, tem dos dois e tudo se ultrapassa. Menos o esquecimento. O esquecimento mata tudo.
“They may take you from me, I’ll miss your fond caress But though they take you from me, I still possess... The way you wear your hat, the way you sip your tea, the memory of all that, no, no they can’t take that away from me”
Ela esquecera tudo. Na sua memória ficara apenas um azedume, como a ressaca depois da noite bem bebida. Para ela restavam os ecos de choro numa sala vazia. Eternos. Tristes. Tudo porque ele não soube ouvir os avisos. ‘Dois meses’, alegara ela, ‘dois meses de aviso’. E nada. Nada. Ouvidos moucos e confiança excessiva numa relação que parecia inquebrável. Mas quebrou. Estilhaçou. Ruiu. Por causa dele. E se o arrependimento servisse a alguém, servi-lo-ia a ele mais do que a qualquer outro.
A angústia que o corroía por dentro falava por si. Um réu acabado de ouvir a voz rouca do juiz anunciar-lhe a prisão perpétua não sentiriza o desespero dele quando ela repetia ‘nunca mais’. ‘Nevermore’, como o corvo de Edgar Allan Poe. Mas a esperança ainda raiava através da sombra que lhe encobria a alma. Sem esperança o que seria dele? Pequeno e isolado, sem a ilusão de eternidade que o amor concede aos que o alimentam com o corpo e o espírito. As figuras divinas, negras e sombrias, que espreitam vingativas de catedrais cinzentas não se comparam ao poder redentor e luminoso do amor. E o sorriso dela? Nunca mais para si. E as carícias dela? Roubadas para sempre pelos erros do passado. E a vida em conjunto? Memórias de outro tempo, outro sítio. Memórias, apenas...
"The way your smile just beams, the way you sing off key, the way you haunt my dreams, no, no they can’t take that away from me We may never, never meet again on the bumpy road to love, still I’ll always keep the memory of...The way you hold your knife, the way we danced till three, the way you changed my life”
E a acrescentar ainda mais ao peso insustentável da perda, a certeza de que poderia ter sido evitada. Uma palavra de encorajamento, uma carícia na altura devida, um pouco de amizade, mesmo quando parecia que ela queria o contrário. Nem sempre os sinais são visíveis para quem vive as situações. O que no grande ecrã parece a asneira maior do actor principal, aquela que compromete de vez a sua relação com uma qualquer Julia Roberts, numa qualquer comédia romântica, aquela asneira tão básica, tão óbvia! Óbvia para quem a vê de fora... Visto do interior de um aquário todo o mundo é difuso. Aprendeu mas, segundo ela, demasiado tarde.
‘Demasiado tarde’, as palavras cruas e duras da sentença. Não como o machado do carrasco, pois esse é demasiado misericordioso. Como a sentença de um deus das profundezas, pena eterna nos subterrâneos infernais. ‘Mea culpa, mea maxima culpa’, de que vale admiti-lo? De que vale admitir os erros do passado? Insensibilidade, mau feitio, palavras duras, paciência que se esgota com a rapidez de um fósforo que arde, falta de cuidado com um amor frágil. Agora seria diferente. Ele estava convicto. E estava tão próximo, tão próximo! Porém as palavras ‘demasiado tarde’ caíram-lhe em cima dos ombros, como um peso de dezasseis toneladas. Ela nunca saberia o que poderia ter sido, a mudança na sua vida, a luz no fundo do túnel.
Ele teria mudado, já estava mudado... O abanão fora suficiente. Mas a seguir a um abanão tem de vir um amparo, um braço forte que impede a queda. O amparo nunca chegou e ele caiu. Depois, do fundo da valeta, sem ter sequer a satisfação de estar entre os que olham as estrelas, a queda parecia-lhe ter sido mais dura do que alguma vez julgara possível. Sem ela nada fazia sentido. Nem planos de futuro, nem novas relações, nem carreiras brilhantes. Nada. Absolutamente nada à sua frente, excepto um futuro negro e um futuro ainda mais negro. Guardaria as recordações dos bons momentos passados juntos como um avarento guarda as moedas, junto a si, a toda a hora. Sem elas não sairia de casa de manhã, não faria a barba, nem mesmo uma vez por semana, não se olharia ao espelho, não comeria, não dormiria. Suaves recordações, cada vez mais distantes, quase translúcidas, como uma velha fotografia manuseada vezes demais.
“No they can’t take that away from me No, they can’t take that away from me...”
O autocarro abrandou. Avenida da Liberdade. Uma lágrima solitária correu-lhe pela face. As luzes ainda traçavam o caminho que, um ano antes, na premonição onírica, o levara a ela, naquele mesmo local, por volta da mesma hora. Hoje ela não o esperava, fosse sonho ou realidade. Mas... Se as luzes ainda brilhavam, talvez... Uma réstia de esperança iluminou-lhe o olhar... A lágrima caiu no chão sujo do autocarro. Os borrões difusos em redor gritaram como possessos. Tentavam apanhá-lo? Tentavam sair? Tentavam ocupar o lugar que ele deixara vago? Uma figura lá fora, uma jovem morena embrulhada num casaco preto e que tiritava de frio, acenou com vigor. Seria ela???
Nuno acotovelou os passageiros do autocarro procurando sair. Uma senhora gorda bloqueava-lhe o caminho e arfava violentamente com um grande embrulho debaixo do braço. Pedir-lhe licença para sair não resultava de forma alguma:
“Qual sair, acha que consigo mexer-me? Esta rapaziada não respeita ninguém”.
O autocarro partiu e Nuno deitou um último olhar pela janela. A rapariga ainda lá estava, mas, através dos vidros embaciados não conseguia distinguir-lhe as feições. Seria ela?
Nunca iria saber.
Publicado por m-a-ribeiro28 em 03:11 PM
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Retalho nº 17 - Regresso ao Bar Barruiva
Triste e desanimado como nunca, Nuno decidiu ir afogar as mágoas no Bar Barruiva. Saiu do autocarro duas paragens depois e encaminhou-se, a pé, para o Bairro Alto. Ao chegar ao local por ele tão frequentado nos tempos de estudante, Nuno estacou, boquiaberto. O Bar Barruiva ainda lá estava, o edifício era o mesmo, a porta também. No entanto – ó barbaridade das barbaridades! – em vez da tabuleta metálica e descorada. o nome do estabelecimento era agora indicado por um letreiro de néon, que brilhava, em vermelho e laranja: ‘Bar Barruiva Cybercafé’.
“- Cybercafé!!!! O Adolfo deve ter morrido!”
Ao entrar, porém, Nuno deu de caras com o dono. Atrás do balcão estava o Adolfo, tão balofo e sujo como sempre. O bar estava mudado, com computadores espalhados sobre as mesas que havia ocupado com os colegas de faculdade. De resto permanecia encardido e mal iluminado. A clientela também era um diferente: Alguns homens de meia idade de óculos, estrangeiros que vinham abrir a sua caixa de correio electrónico e um ou outro adolescente imberbe.
Mais espantoso do que tudo isto era a companhia do Adolfo. Atrás do balcão, roçando-se na sua pança rubicunda, estava uma jovem escultural, vestida com roupas reveladoras e um cigarro dependurado nos lábios.
Nuno dirigiu-ser ao Adolfo, com cara de pouco amigos, e disposto a dar-lhe uma enorme reprimenda, mas o ar de bonomia e satisfação do outro atenuou-lhe a raiva.
- Bem vindo rapaz. O que achas do que eu fiz ao meu bar?
- Eh... Bom, está... Diferente.
- Melhor ou pior?
Reunindo alguma coragem dentro de si, Nuno ripostou:
- Está uma merda Adolfo! O que te passou pela cabeça? Estás a destruir as minhas melhores memórias dos tempos de estudante.
- Calma. Calma. Eu explico-te. Com muita paciência, para não ferir a sensibilidade do jovem que fora um dos seus melhores clientes, Adolfo contou toda a história...
Há alguns meses tinha comprado um computador. Um vizinho ensinara-lhe a usá-lo e convencera-o a aderir à moda da Internet. Adolfo ficou maravilhado com todas as possibilidades, mas a que mais lhe agradava era poder conhecer mulheres ultrapassando a barreira da aparência. Instalou o ICQ e o MIRC e a sua vida mudou. Uma das noites de folga encontrou uma jovem que dava pelo ‘nickname de ‘Lost Soul’. Deprimida e fragilizada por mais uma relação que acabara mal, ‘Lost Soul’ procurava vingar no mundo do trabalho após ter tirado um curso. Adolfo aproveitou a oportunidade de ouro que lhe caíra nas mãos. Disse ter 28 anos, um metro e oitenta e olhos azuis. Depois, discutiram Marx e Proudhon e ele aconselhou-a e ajudou-a a superar os problemas, recorrendo à sua experiência de vida.
A jovem parecia cada vez mais interessada em conhecê-lo pessoalmente, mas o Adolfo, sabendo que, ao vê-lo a reacção dela seria negativa, adiou o mais que pode o encontro. Jogou as cartas certas e, finalmente, enviou-lhe um e-mail patético no qual lhe pedia imensas desculpas por ter mentido sobre si próprio e explicou-lhe quem era na realidade.
Paradoxalmente os contactos não terminaram por ali. Muito pelo contrário! Ela achou-o extraordinariamente honesto e sensível e apaixonou-se, mesmo sem o ter visto. Adolfo aproveitou a deixa com muito cuidado, e não insistiu no encontro ao vivo. Quando a ocasião se proporcionou, ela já estava nas suas mãos.
- Depois foi uma festa! É verdade que ela acha que eu sou uma desgraça na cama. Mas nunca mo diz. É verdade que tem vergonha de me mostrar às amigas. Por isso saímos só os dois, ou encontra-mos aqui no bar. Ela até me ajuda! Também é verdade que não me pode apresentar à mãe, senão a senhora, coitada, morria de susto. No entanto eu nunca fui tão feliz e ela também não. Pronto, está quase explicado. Depois disso ela convenceu-me a remodelar esta espelunca e eu, para lhe agradar, aceitei. Para lhe agradar faço tudo. Até tomo banho de quando em quando! Afinal, a Internet salvou-me a vida, eu simplesmente agradeci a este novo meio de comunicação, fazendo do Bar Barruiva um templo dos ‘chats’.
Sentado num banco ao lado de Nuno, de ouvido atento à conversa, estava um antigo cliente do Bar Barruiva. Joni Guitár, alcoólico e toxicodependente da velha geração, que se dizia ter estado presente no mítico festival de Woodstock. Usava sempre a sua t-shirt Grateful Dead, calças pretas coçadas até à exaustão e tocava guitarra numa pequena espelunca do Intendente, a Cova Funda. Sorriu, mostrando as gengivas disformes e a falta de dentes.
- Ó Adolfo, a tua chavala já aprendeu a mudar fraldas? Não estou a dizer que a podes engravidar, a malta já ‘tá podre de saber que a tua lagartixa não sai da toca... Mas não tarda muito vais começar a mijar nas calças e a chavala é que tem de mudar a fraldinha! E arrastar a cadeirinha de rodas também, ó mangas!
Jóni riu-se sozinho das suas piadas grosseiras. Adolfo, vermelho de raiva, bufava impropérios em voz baixa, não fosse a miúda ouvir, e Nuno, enojado com toda esta história ridícula e deprimente, típica de um cinquentão em crise de identidade, já só tinha vontade de lhe escarrar para a cara. Conteve-se e saiu porta fora, não sem antes rosnar:
- Adolfo, podes escrevê-lo: Nunca mais cá volto. E dá os meus cumprimentos à tua Lolita. Quando ela abandonar esse mundo de fantasia, aposto os meus últimos cinco contos em como vais levar o maior par de cornos deste mundo. Se o Crispim ainda estivesse em Lisboa, garanto-te que ele te partia a tromba!
- Vai-te embora ó melga! – rosnou Jóni, pendurado no banco, fazendo macaquices. – Ó Adolfo cá para mim ele anda-te a comer a chavala. Não tenhas dúvidas bacano, o gajo ficou piurso. Estavas à espera de quê ó mangas? A chavala é nova não quer a tua picha enrugada e a tua careca sebenta.
Nuno saiu amargurado, vendo os últimos resquícios da sua vida anterior a serem varridos pelos novos tempos. E, embora não tivesse bebido nada, vomitou à porta do Bar Barruiva, jurando a si mesmo que seria esta a última vez que chamaria pelo famoso Gregório, distinto companheiro da vida de estudante, à porta daquele antro de pedofilia e novas tecnologias.
Publicado por m-a-ribeiro28 em 03:17 PM
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Retalho nº 18 - The End
"This is the end, my only friend, the end Of everything that stands, the end…" The Doors, The End
Um ano passou e, ao contrário do que Nuno previa nas suas piores expectativas, muita coisa haveria ainda de mudar. Acomodou-se ao triste emprego, para o qual se arrastava diariamente, o palácio que albergara a universidade onde ele e os velhos amigos haviam estudado foi derrubado para a edificação de um hipermercado e os alunos transferidos para um brilhante e moderno ‘campus’, sem espírito, sem alma. Através de Rodrigo recebera algumas novidades sobre os companheiros, com os quais até já tinha vergonha de contactar: Crispim era o infeliz pai de uma criança, Bernardo fora enviado como correspondente para Nova Iorque e casara, finalmente, com a famosa menina da meteorologia, Diogo Avellar era a coqueluche da literatura nacional, convidado para palestras, com site oficial na Internet e constantemente assediado para apresentar um programa de televisão. O próprio Rodrigo singrava na carreira jornalística de forma pautada, mas convicto de que ainda haveria de triunfar. Quanto a ‘Eça’, o seu paradeiro era desconhecido.
"Falei com os pais dele e disseram-me que foi percorrer a Europa. Não está contactável, por isso não sei por onde anda. Mas foi uma óptima ideia, o projecto dele é escrever um livro baseado nas suas experiências. Aliás, acho que, em breve, vão começar a publicar algumas crónicas de viagem numa revista qualquer", informou o Rodrigo na última conversa que tiveram.
E nos segundos após a breve troca de palavras com o Rodrigo, durante os quais, ainda combalido, tentou analisar num só golfada de ar a decrepitude da sua existência. Nuno pensou em 'Eça', provavelmente o seu último e único amigo e numa das últimas frases finais da obra magistral cujo autor "emprestara" o nome próprio a João. "Ainda o apanhamos!"
Ainda o apanhamos!
Publicado por m-a-ribeiro28 em 03:25 PM
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